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10/11 Berlim de olhos vendados

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Categoria: Histórias

Passeio de olhos vendados privilegia os sons e a música de Berlim


Projeto "Gehörte Stadt" explora os sons de Berlim


Projeto na capital alemã tem por objetivo despertar a atenção para a diversidade de sons urbanos. Além do passeio, um concerto musical e uma massagem auditiva fazem parte da experiência.

Quem visita Berlim tem uma nova maneira de vivenciá-la: através de seus sons, ruídos e música. O passeio Gehörte Stadt (ouvindo a cidade, em tradução livre do alemão) propõe aos participantes perceber a cidade com os ouvidos. Para isso é necessário apenas um pouco de confiança, alguma curiosidade e 90 minutos livres.
 
Como uma excursão por diversos e distintos pontos da cidade, o passeio é organizado pela Kammerensemble Neue Musik Berlin. A instituição apoia e promove a cena musical contemporânea da cidade e tem como um dos principais objetivos artísticos expandir a nova música, não apenas para o círculo de musicistas e compositores, mas também ao grande público. Além do Gehörte Stadt, faz parte do projeto um pequeno concerto no bairro em que acontece o passeio e uma massagem para os ouvidos.
 
Os passeios ocorrem com aproximadamente 25 participantes. Cada um tem o seu guia, previamente treinado para conduzi-los pelo trajeto. "Todos usam uma máscara de dormir, mas o ideal é manter os olhos fechados. Quando nos falta a visão, outros sentidos, como o olfato, também são aguçados. Tentamos levar os participantes a lugares onde a audição possa ser despertada", declarou Barbara Gstaltmayer, uma das organizadoras do Gehörte Stadt.
 
A iniciativa começou em setembro e já passou por dois bairros da cidade. "O bairro Miete (centro) é super cheio e agitado, com trânsito intenso. Como é uma região muito turística, ouve-se uma grande variedade de idiomas. Já em Prenzlauer Berg o passeio foi mais contemplativo, com sons mais brandos e momentos de silêncio. Quase como uma meditação", completou Barbara.
 
De ouvidos bem abertos
 
Bairro Kreuzberg tem grande diversidade de ruídosEu participei do passeio no bairro de Kreuzberg. Uma das regras é que guia e participante não devem se falar. Antes de começar o passeio, minha simpática guia me explicou como ela iria me guiar pelo braço e como eu deveria manter o meu ritmo para me acostumar com a situação, me orientar e manter o equilibrio.
 
O que impressiona no começo do passeio é a diferença entre os ruídos de uma rua movimentada e de uma rua calma. Outro ponto interessante é como o ponto de referência da audição muda. Com os olhos fechado, os ruídos vindos de baixo se tornam mais vividos. Crianças, cachorros e bicicletas parecem muito mais próximos do que realmente estão e o som da porta de um carro batendo soa como uma explosão.
 
Sem conhecer o percurso, tentei adivinhar por onde estava sendo levado. Começamos na movimentada e turística rua Bergmannstrasse, onde diversos idiomas se misturam entre o som do trânsito e dos cafés. Dois quarteirões depois chegamos à tranquila praça Chamissoplatz, onde o som dos passos na areia complementam os ruídos das crianças brincando.
 
Mais alguns minutos caminhando e somos levados ao mercado local. O som abafado das vozes se mistura aos odores dos pequenos restaurantes e das lojas de frutas e verduras. O último ponto que eu consegui identificar foi o cemitério que fica a alguns metros dali. Andamos pelo gramado, entre o silêncio e o som das folhas secas de outono sendo pisadas. O terreno cheio de inclinações do cemitério me fez perder a orientação. Passei o resto do passeio sem saber onde estava.  
 
O supermercado me fez reconhecer o lugar onde estava. Logo depois foi a vez da escada rolante nos levar de volta ao local onde o passeio havia começado. Para minha surpresa havia música do lado de fora do prédio. Subimos pelo elevador e fomos colocados sentados lado a lado na sala de concerto, onde outra peça estava sendo executada.
 
Quando tirei a máscara de dormir minha guia não estava mais ao meu lado e pude compartilhar a experiência com outros participantes e com os músicos presentes, que tocavam peças de composição própria baseada em sons de Berlim.
 

 
Massagem auditiva
 
O projeto inclui concertos no ponto de partida da excursão, em locações geralmente não usadas para apresentações musicais. "Os concertos são com uma vitrine do passeio. Eles são gratuitos e duram no máximo 40 minutos. Queremos atrair o maior número possível de pessoas", disse Ondrej Adámek, um dos músicos participantes do projeto ao lado do brasileiro Chico Mello, da banda berlinense Telebossa.
 
Adámek também foi responsável pela massagem auditiva que eu recebi antes do passeio. "Queremos massagear a percepção do ouvido e explorar as habilidades da audição", completou. Durante dez minutos, num ambiente de completo silêncio, minha percepção e audição foram treinadas com pequenos e distintos sons produzidos por Adámek, fora do alcance da minha visão.
 
"Utilizo materiais da natureza, como madeira, pedras e folhas, além de objetos de metal. Tudo que é suave ou tem um som contínuo funciona bem. A massagem é como uma pequena preparação da audição para o passeio, deixando-a mais sensível. Queremos que os participantes aflorem sua audição", completou.  
 
Uma experiência para quem quer treinar e expandir a audição, não apenas para explorar Berlim de uma maneira nova, mas também para ver o nosso cotidiano e realidade com os ouvidos mais abertos.
 
Texto: Marco Sanchez
 Revisão: Alexandre Schossler

Deutsche Welle

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